quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Lágrimas Secas

[ conflito introspectivo ]



Enquanto ele dorme intranquilo devido ao calor, ela fuma.
Acordada, perdida em pensamentos que variam da tristeza à melancolia.
Apenas divagações pessimistas quanto à felicidade que atinge as pessoas normais.
Embaladas por canções obscuras, ela apenas escreve, calada, perdida em suas idéias cruéis contra si mesma.
O vazio, a solidão. Nenhuma alma viva pra lhe falar palavras de conforto, ou até mesmo que depreciação.
Ela está completamente só, sem amores, amigos, alegrias e principalmente, esperanças.
Mas tudo isso é normal, compreensível e esperado. Tudo é apenas consquência direta da vida desregrada que ela sempre cultivou como rosas no jardim.
Não se abala, apenas aceita seu destino e condição, sem balbuciar qualquer tentativa desesperada de retorno. Infeliz, mesmo que momentânea e secretamente. Mas ela até gosta de se sentir assim, mesmo. Às vezes se induz a ter pensamentos sórdidos, a uma depressão contida que no fundo preenche o vazio atual.
O calor incomoda, e nem assim o sono ou o pesar conseguem lhe vencer. Obstinada, parece querer vencer os próprios limites que o corpo lhe impõe, o que só lhe dá mais certeza de que não passará dos 30.
Os cinzeiros lotados e o copo já vazio. Come um chocolate sem vontade, no intuito de se distrair, de não repensar em problemas que ela não gostaria de ter, que não há mais como resolver.
Ela já não se pronucia, já não tenta mais contornar. Não tem jeito, ela pensa, e com razão.
Mas não reclama. Se contenta em fazer críticas mentais à si mesma, se martirizando calada, muda em um silêncio que corrói sua alma e arranca lágrimas frias de seu coração à cada nota que o piano entoa.
Para, passa a mão nos cabelos presos, bagunça-os na tentativa de ajeitá-los desordenados, mas já não é possível.
Expira lentamente, como se esse fosse seu último sopro de vida. Ela já não consegue mais respirar sozinha.
Acende outro cigarro, talvez por puro hábito ou vontade de ter com o quê ocupar as mãos e consequentemente, os pensamentos que insistem em ir sempre na direção mais dolorosa, que justamente devia se desviar.
Mesmo imersa nessa visão não agradável, ela não se comove, não se compadece de si mesma, e muito menos lamenta sua sorte.
Olha pro lado, onde ele ainda dorme, e se coça na tentativa de espantar os mosquitos imaginários criados pelo calor noturno e pertubador. Se espreguiça preguiçosamente, e volta a dormir.
Em plenas 4 da manhã lá esta ela, acordada, disposta e quase inerte, absorta em levianos pensamentos cheios de fundamento, razão e culpa. Mas ainda assim segura de que fez o melhor.
Talvez apenas para si, mas ainda assim o melhor que poderia fazer. E ela não se arrepende.
Talvez por isso não se sinta infeliz em sua totalidade. Ela tem seus momentos, e isso devemos entender. Afinal, todos nós temos.
Mas não como ela. Não como os dela.
Ela coloca tanta paixão naquilo que faz que chega a ser difícil caminhar carregando sua alma. Um fardo, uma cruz pesada, mas que é levada com prazer.
Ela já pagou caro demais por tudo que conseguiu ser, por tudo que fez pra poder ser exatamente aquilo que é, perdida em sua imperfeição pra ela perfeita.
Não é justo que desista assim, de uma hora pra outra, sem exitar. Não, ela jamais o faria, mesmo que sua vida dependesse disso.
Ela percebe, para seu desespero, que os cigarros estão ficando escassos, e lamenta por isso. São eles seus companheiros diários, das jornadas insones e instrospectivas.
Companheiros sim, porque não ? Ela prefere acreditar nisso, afinal, alguém especial havia dito que fumantes sempre possuem companhia: seus próprios cigarros.
Enquanto escuta suas músicas preferidas, a fumaça de seu melhor cigarro toda conta do lugar, que combinada à pouca luz ambiente, cria todo um cenário propício à uma tragédia cômica e até dramática.
Mas tão real quanto você ou eu.
A vida dela nunca esteve tão sem propósito, tão sem compromisso. Existem apenas planos, que o sono impede, dia após dia, de serem concretizados.
E assim ela percebe a vida se esvaindo dentre suas mãos, como a fumaça de seus cigarros mentolados a se perder no vento.
Não, ela jamais se acomodaria. Ela apenas curte esse momento de pura misantropia e visão interior. Ela os goza de forma incompreensível, e assim, desprovida da maioria dos sentimentos, é que ela se sente mais humana, mais viva.
Nessas horas de pura solidão e encontro pessoal único, é que ela percebe o quanto é válido viver sendo apenas o que é, apenas o monstro que a sociedade gostaria de calar nos confins do mundo, a fim de não poder expor suas idéias tão controversas, realistas e pessoais. Ela seria capaz de contaminar o mundo com as verdades que todos nós gostaríamos de esconder debaixo do tapete, que gostaríamos de por um momento, esquecer das piores imundícies que existem dentro de nós.
Se passam as horas, cheias de sombras e verdades semi-absolutas, e ela apenas se orgulha de poder observar isso com os aspectos que somente ela consegue enxergar. E o cd se repete, mais uma vez.
E nessa trilha sonora que revela o enterro dos medos e lágrimas de tudo e todos, ela apenas sorri, um riso contido, porém sincero e único.
Ela pensa nele, se estaria dormindo, chorando ou até mesmo pensando nela com toda a intensidade que ela pensa nele. Ele pode até estar com o pensamento nela, mas com certeza não os mesmos pensamentos que ela nutre calada sobre ele.
Ela o ama, claro, e ainda o ama em demasia para que decida parar de sofrer. Não se conforma de como as coisas puderam chegar ao fim, de forma tão turbulenta, tão terrível e irreversível. Não, as coisas não acabam por aqui. É nisso que ela se agarra com forças que ela já não tem mais.
Seria pedir demais que o tempo pudesse dar uma nova chance aos dois ? Ela prefere não pronunciar tal pedido, com vergonha do próprio tempo e do próprio desejo de tê-lo de volta. Não seria justo com ele, e nem com ela. Ela só gostaria de que pudesse, ainda, ser feliz como foi um dia com ele.
Escrever não mudará tudo que ja foi dito e feito, mas ela se sente melhor em fazê-lo. Dessa forma é capaz de partilhar com suas outras 12 personalidades tudo aquilo que sente. Por isso ela se dedica de forma tão séria à esse tempo que tem consigo mesma. Por isso ela é acometida por essa depressão induzida, desejada e válida. Assim, ela pode enfim encontrar a paz discutindo entre si.
A preocupação dela não é que as palavras façam sentidos, que expressem coisas belas e compreensíveis. Ela apenas escreve, para si mesma, como um desabafo morto que jazerá eternamente no precipício de seu auto-conhecimento incompleto.
Ela só quer cantar sua canção muda, iluminada pelo sol que ela não tolera, soltar seus tigres e leões no quintal, enquanto as pessoas imaginárias na sala de estar são ocupadas demais para perceber qualquer diferença.
Tem vontade de plantar folhas de sonho, de fazer um brilhoso punhal de puro aço, para matar o seu amor de uma vez por todas. E enquanto isso, as pessoas se ocupam apenas de nascer e morrer, como tudo sempre foi, certo e incerto, seguindo o rumo corriqueiro de uma vida miserável de tapolhos.
Não quer que faça qualquer sentido, ela apenas o quer, do seu jeito bem incomum. Só com isso ela se satisfaz, com o encontro de todos os seus pensamentos mais ilógicos.
"Toma um fósforo, acende teu cigarro. Não, obrigada, eu tenho isqueiro." E assim zomba de uma dos poemas que mais gosta. É o jeito dela de demonstrar carinho e importância. Uma meiguice seguida de uma hostilidade. Uma boa verdade dita por alguém.

Já é tarde, é hora de acordá-lo, fala calada.
Ele ainda dorme, um bom amigo, na minha cama.


E eu, ainda fumo.
Ainda penso.
Ainda sofro.
Ainda choro através dessas palavras, minhas lágrimas que jamais rolaram.

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

No-one is there

[ pseudo-cadáver ]


Agora eu estou tão assustada,
Pois pareco esquecer como sons se tornam palavras ou até mesmo frases...

Não, eu não falo mais, e o que poderia dizer quando não há ninguém lá?
Não há nada a ser dito...

Então eu prefiro ficar no escuro e no silêncio, sozinha ...
Ouvindo um raio de luz, do que um som ou alguém para conversar,
do que algo para compartilhar...
Já que lá não há esperança e não tem ninguém lá.

Não, não, não...
Uma alma não vivente e não há mais nada a ser dito,
no escuro eu permaneço totalmente sozinha, por mim mesma,
dormindo a maior parte do tempo para suportar a dor.

Eu não suspiro uma palavra,
Eu não falo há semanas e ainda o amante dentro de mim (secretamente)
Está puxando minhas orelhas.
Mas não há ninguém,
E às vezes parece que cada hora que passa outra palavra está deixando minha mente...
Eu sou a amante da solidão, meu pátio está deserto mas eu não me importo.
A presença das pessoas é feia e fria
e é algo que eu não posso mais nem ver nem assimilar.

Não, eu não falo mais e o que deveria dizer,
já que não há ninguém lá e lá não há nada a ser dito?
Tudo é opressivo (tudo é tão pesado!) lá não há ninguém, e ninguém está lá.

--------------------------------------------
1º PROBLEMA


E eu não tenho do que reclamar, afinal. As coisas estão correndo conforme minhas atitudes traçaram.
Algumas de uma forma não planejada, e por isso negativas. Mas não a ponto de me levar a algum arrependimento, jamais. De tudo feito, tudo é válido.
Minha vida caminha com passos ora longos, ora demasiado curtos. Mas quem gera esse movimento nada sincronizado, nada mais é do que apenas meus atos. Por isso, porque haveria eu de reclamar, já que tudo que ocorre é consequência de minhas vontades ?
Eu deveria estar satisfeita com isso, então. Mas como é inerente ao ser humano a insatisfação eterna, não me martirizo por me sentir assim, incompleta e um tanto amarga.
Acontece que meus atos não podem nunca motivar atitudes prematuras de terceiros. Acho isso errôneo, precipitado e ilógico. Afinal, eu vivo minha vida baseada em meus desejos, princípios, metas, objetivos e vontades. E nada disso é transfirível a outrém, de forma alguma.Então porque agir mediante os fatos alheios ? Isso não me é sensato. Claro que existem circunstâncias e situações diversas, onde é realmente necessário esperar uma atitude alheia para que se possa agir. Mas o término de um namoro não é, para mim, motivo suficiente para que me mude de uma cidade que gosto, que tranque a faculdade que escolhi e deixe para trás família e amigos.
Existem coisas na vida mais importantes que amores momentâneos e situações que parecem irredutíveis. O tempo é senhor de tudo, por isso não concordo em fugir dos problemas, quando o que estamos fazendo com isso, na realidade, é apenas adiar uma resolução e um aborrecimento que mais cedo ou mais tarde virá.
Nossa, eu sou um monstro, um coração de pedra, uma pedra de gelo. Não é bem assim, apenas sou realista acima de tudo.
Lembrando maaais uma vez: a tia aqui é RAZÃO, não sentimento. E isso independe da situação.



2º PROBLEMA


Eu realmente não tenho sorte nessas empreitadas amorosas, isso é fato mais do que comprovado, infelizmente.
Mas sabe que é até bom isso acontecer ? Até porque minha capacidade de adaptção é algo fora do sério, o que faz com que o sofrimento não o seja pra mim.Eu tenho uma tendência impressionante para me envolver com pessoas complicadas. Seja ideologicamente, regionalmente, 'paranoicamente'. Ninguém é normal, incrível !
Mas se bem que eu não me atraio por pessoas comuns, o que faz virar consequência minha aproximação de pessoas 'estranhas', por assim se dizer.
Só sei que é imutável o fato de que sempre existem grandes e faraônicos obstáculos. Ou vão embora, ou moram longe, ou não querem se envolver, ou já querem se envolver demais. Sem falar de muitos e muitos 'ou' bem piores.
Me conformo em saber que sempre, de um jeito ou de outro, sou uma pessoa inesquecível na vidas das pessoas que cruzam seus caminhos com o meu. Seja de uma forma positiva ou não, o fato é que nunca me esquecem.
Pode parecer prepotência, soberba e desembasada, mas que eu sou a mulher da vida de vários homens, isso eu sou. Mas do que adianta ser tudo pra alguém, quando tenho o vazio como companhia ?
Certas vezes eu gostaria de ser apenas uma ilustre desconhecida. Acho que assim evitaria vários problemas, mágoas e sofrimentos. Pros outros, claro.
Porque eu até gosto de ficar triste. Gosto mesmo. Nessas horas que consigo ter mais motivações e pensar com uma clareza bem maior. É como dizem, cada doido com suas manias.



1ª SOLUÇÃO


Ao que tudo indica, finalmente começarei a cursar o curso pelo qual sempre fui apaixonada. Um doce pra quem adivinhar.
Vou começar, por exigência materna, um curso de inglês, quando minha vontade era dar início a um de alemão. Uma prova de que nunca estamos satisfeitos, hein ?
Se tudo sair como planejado, dentro de alguns dias começarei a trabalhar no governo, ou seja, terei de tirar meus amados piercings durante o meio expediente. Mas pela grana proposta, vale realmente à pena.
E o mais legal é que por conta desse trabalho, terei possibilidades de morar sozinha, ter um lugar pra chamar de MEU e criar minhas próprias normas.
Não pensem vocês que por morar só, será uma eterna bagunça lotada de festas initerruptas. Isso aqui não é samba do criolo doido.
Com isso, vem consequentemente, mais responsabilidade. E é justamente atrás disso que estou. Esse sonho prestes a ser concretizado, inicialmente não era só meu. Minha intenção era de dividir isso com uma pessoa que amo, que infelizmente não foi capaz de superar erros do passado e que resolveu enfim fugir dos problemas em vez de resolvê-los. O que posso fazer perante isso ? Apenas lamentar e continuar a levar minha vida normalmente.
Como dizem: Se tu não 'quer', tem quem queira. E é por isso que a minha vida jamais para baseada nas atitudes alheias. E tem dado certo até então.





E por hoje é só, pessoal.





{ Tracklist do post: }

[ Marilyn Manson - Redeemer ]

[ Marilyn Manson - Lamb Of God ]
[ Marilyn Manson - The Last Day On Earth ]
[ Marilyn Manson - Tourniquet ]
[ Marilyn Manson - The KKK Took My Baby Away ]
[ Marilyn Manson - Highway To Hell ]
[ Marilyn Manson - The Speed Of Pain ]
[ Marilyn Manson - Mechanical Animals ]
[ Marilyn Manson - 1996 Vs. PowerPuffGirls ]
[ Marilyn Manson - Coma White ]
[ Marilyn Manson & Shanon K - My girlfriend girlfriend ]
[ Cradle Of Filth - Amor & Morte ]


segunda-feira, fevereiro 05, 2007

Revolução Ideológica

É, tempos sem nem olhar isto aqui, eu sei.
Tenho alguns projetos em mente, para as futuras séries a serem aqui expostas.
Como, por exemplo, algo falando sobre distúrbios de personalidade.
Ou até mesmo uma outra que fale especificamente de cada estilo ideológico-musical, inspiração que devo ao meu querido irmão Rodrigo.
Mas isso, são projetos para um futuro breve.
Pra já, me inspirei no acaso, mais exatamente em uma comunidade minha do orkut, a Pós-Modernidade, linkada abaixo:

Em determinado tópico ("São Luís - Antro Pós-Moderno"), também linkado abaixo:
... houve uma discussão bem interessante sobre o título. Caso queiram ler toda a discussão, o link está aí disponibilizado.
Mas vou me ater a colar aqui apenas a minha resposta ao tema, com cortes a fim de não dificultar o entendimento parcial, e daí, colocarei posteriormente a idéia qual quero realmente chegar.

Eis:
"Recém chegada de SP, capital mesmo, pude perceber o quanto São Luís ainda é limitada no que se trata de "antro pós-moderno".E faço minhas as palavras do professor da Mai: enquanto o conceito do modernismo não for consolidado, estamos há anos-luz do pós-modernismo.E digo mais: enquanto as pessoas adeptas ou não do movimento não pararem com modismos fúteis, será impossível promover qualquer espécie de ideologia embasada.
O que rola nessa cidade nada mais é do que modismo e uma série de pseudos-estilos e ideologias.Aqui, infelizmente, ainda existe SIM muito preconceito, e não apenas pessoal.É praticamente impossível, dando um exemplo, no meu caso, que eu passe na rua e não seja olhada com olhares estranhos, e tudo isso graças à um cigarro aceso na mão e a alguma roupa fora do comum para os padrões retrógados dessa sociedade alienada.
Creio que para a consolidação do pós-modernismo, é necessária uma mudança interior, uma auto-aceitação do que se realmente é, independente do que seja, e não se tratando apenas de opção sexual.As pessoas, inclusive aquelas que não ligam para os pensamentos de outrém (que como já foi dito, são poucas, e eu me orgulho em fazer parte desse seleto grupo), precisam, cada vez mais, expandir suas mentes e acabar de uma vez por todas com todos os possíveis rótulos, o que me leva a pensar seriamente em mudar itens da descrição desta comunidade.
Enfim, discordo em absoluto de que São Luís seja um antro pós-moderno. Para minha infelicidade, claro.São Paulo sim, é um antro, ou melhor, uma versão modernizada e estilizada de Sodoma e Gomorra.Nossa cidade precisa de uma conscientização em massa para que o preconceito esmagador se dissipe pelo menos em 1%.E não é fazendo coisas apenas no intuito de "chocar" que vamos conseguir isso.
Se quisermos mesmo que as coisas evoluam para esse sentido, creio que devamos fazer as coisas realmente com vontade, e sem se preocupar de verdade com o que irão falar por aí, pois como todos sabem, vão falar.Mas é um processo gradativo e lento até que as coisas vistas como anormais, comecem a serem aceitas.Mas reforço que isso só ocorrerá quando cada um dos adeptos fizer sua parte, sem a necessidade de causar frisson somente.
Agradeço a atenção que cada um deu a este tópico interessante, em especial à grande contribuição dada pela Maicy, que conquistou, com essa brilhante visão e fabuloso poder de oratória, o título de moderadora.Parabéns à todos pela exposição livre de suas idéias, e não vamos deixar que boas discussões como essa caiam no esquecimento.Espero por novos tópicos produtivos como esse."

Logo após, em uma conversa de MSN, acabei por pensar em mais coisas à respeito, justamente quando debatia.
Conversando com o Jeovahny, meu ex-noivo, justamente sobre a grande felicidade que tive em ler boas idéias no tópico "São Luís - Antro Pós-Moderno", ele me deu uma idéia excelente.
Conversávamos sobre como os adeptos do P-M, poderiam um dia começar a libertar suas mentes dos preconceitos sociais.
Foi aí então que ele me falou de como fazendo coisas simples, podemos dar início a uma corrente libertária de conscientização da massa adepta.
Entre as idéias citadas, a que eu achei mais prática, econômica e viável, foi a de distribuir em pontos estratégicos frequentados pelo público GLBT da ilha, panfletos com informes, idéias e incentivos à luta contra a repressão social que esse movimento sofre na cidade, da mentalidade retrógrada atuante.
Já tive algumas idéias para os panfletos, mas creio que 30 cabeças pensem melhor do que apenas uma cabecinha ruiva.Acho que se cada um de nós começar a fazer sua parte, por menor que pareça ser, estaremos contribuindo para mudanças bem maiores, mesmo que a longo prazo.Mas é justamente assim que os quadros sociais começam a se modificar, através de poucas pessoas que cansaram de apenas reclamar de braços cruzados e que tiveram força de vontade e motivação para iniciar uma revolução ideológica sem sangue.Portanto, estou esperando por boas idéias.
Um bom exemplo de como tais movimentos inicialmente pequenos dão certo, é o Espaço Impróprio, em SP, que com minhas mãos ajudei a construir, mesmo que pequena parte.O espaço é GLBT, e promove eventos, shows, oficinas, palestras e panfletos justamente sobre como lutar contra a repressão, que por incrível que pareça, existe sim em São Paulo.
O Espaço Impróprio é um centro (contra)cultural que segue os princípios do faça-você-mesmo. Todo o dinheiro arrecadado nas atividades é destinado a ajudar a manter o espaço físico (aluguel, contas, reformas) e viabilizar outros projetos (biblioteca, cybercafé etc).
Seria excelente construirmos um espaço assim aqui, mas para isso é necessário que hajam pessoas engajadas e motivadas nessa causa.
Pra quem se interessou pela história do Espaço Impróprio, aqui vai o site provisório, com algumas informações adicionais:
Abraços,
AritAnna-Varney.

P.S.: Agradecimentos especiais à Jeovahny Tavares, pelas boas idéias.

domingo, dezembro 31, 2006

X Parafilias: Voyeurismo

[ Voyeurismo ]


É a obtenção do prazer através da observação de pessoas nuas ou de práticas sexuais com o desconhecimento da (s) outra (s) pessoa (s). O risco e o mistério provocam maior excitação.
Na maioria das vezes, o voyeurista masturba-se durante a observação.
Geralmente, são homens solteiros que apresentam dificuldades no relacionamento com pessoas do sexo oposto, por medo de rejeição.



Depois de tanto temp0, estou criando vergonha pra finalizar temporariamente essa fabulosa série denominada "Parafilias".
Nesse tempo, muitas coisas mudaram, muitas permanecem. Muitas coisas boas e um auge na felicidade. Tudo isso, somado à novidades profissionalmente positivas, vieram a me encorajar a continuar estudando e atualizando essa parada aqui.
Enfim, o tempo é curto e a oportunidade não é das melhores...
Um feliz ano novo e que novos sonhos e possibilidades possam se concretizar nesse ano que já tá chegando.


Beijos à todos.

quinta-feira, outubro 12, 2006

IX Parafilias: Zoofilia

[ Zoofilia ]
A zoofilia é o envolvimento sexual de seres humanos com animais.
Há duas variedades: a zoofilia em si, que é o envolvimento levando em conta o prazer sexual também do animal, e a bestialidade, que é a satisfação sexual sem levar em conta o bem-estar do animal, muitas vezes levando-o a maltratos, ferimentos e até a morte.
A bestialidade equivaleria ao estupro humano.
Praticar sexo com animais é o que dá prazer aos praticantes da zoofilia.
Assistir cópulas de animais também pode ser fator de excitação para eles.
Em algumas regiões, principalmente nas rurais, é comum pessoas que mantém relacionamento com animais. A prática desaparece quando o indivíduo inicia um relacionamento com humanos. Ou não ...

VIII Parafilias: Podolatria

[ Podolatria ]
Podolatria também poderia ser classificada como subdivisão do fetichismo, e até mesmo constituir a ramificação do parcialismo, ambas parafilias anteriormente aqui citadas.
A Podolatria baseia-se no desejo concentrado nos pés.
No Brasil, um fetichista de pés é normalmente reconhecido pela expressão 'podólatra'.
Já em Portugal não é incomum o uso do termo podófilo.
Deve-se ter cuidado para não confundir o termo com outro muito parecido, mas de sentido completamente diverso: pedofilia, atração por crianças.
São atos comuns que levam o podólatra a ter excitação e prazer sexual o ato de ver, tocar com as mãos, lamber, cheirar ou beijar os pés de outra pessoa, entre muitos outros; muito raramente um fetichista pode ainda ter prazer quando os próprios pés são objeto dessas ações.
O fetichista responde ao pé de uma maneira similar à que outros indivíduos respondem a
bundas ou seios. Mas é de notar que, no caso do podólatra, esse desejo direcionado para uma parte específica do corpo adquire o caráter pronunciado de uma fixação.
Alguns podólatras, por causa disso, sentem prazer em ter seus genitais manipulados pelos pés do parceiro até o ponto de atingir o orgasmo e a ejaculação (footjob, em inglês).
Este é, provavelmente, o exemplo mais frequente de excitação com o uso dos pés capaz de levar à satisfação completa sem que haja penetração, isto é, sexo genital (talvez por se tratar, também, de fato, de uma forma de masturbação). Outras fórmulas em que uso dos pés por si só acabam por levar ao orgasmo e à ejaculação também existem, todavia, variando de indivíduo para indivíduo.
Como outras
parafilias, o fetiche que se concentra nos pés varia enormemente e pode ser altamente especializado. Assim, um fetichista pode ser estimulado por elementos que outro considera repulsivos. Alguns podólatras preferem pés com arcos pronunciados, outros, de dedos longos, unhas longas, alguns preferem pés descalços, outros, pés calçados em certos tipos de calçados ou meias, alguns preferem pés muito bem cuidados, outros, sujos, de plantas incrustadas de terra, etc.
Um fetichista de pés pode ser
homem ou mulher, embora estime-se que o contingente masculino passe de 70%. Outras práticas sexuais como o sadomasoquismo frequentemente acompanham a atração por pés. Um traço que permite distinguir o podólatra, no entanto, na comparação com o sadomasoquista submisso, é o fato de que o pé, para aquele, reveste-se de um valor estético, que por si só o excita. Há um profundo e ao mesmo tempo evidente potencial de significação sadomasoquista relacionado aos pés.
Mas as fantasias que aproveitam esse potencial surgem a partir de uma excitação espontânea que os pés desencadeiam. Os pés não servem de mero instrumento para realização de fantasias de submissão, como acontece nos casos de sadomasoquismo típico. Eles, por si mesmos, desencadeiam a cobiça e o processo de desejo, que passa a orbitar em torno deles. O sadomaquismo encontra-se presente em segundo plano, provavelmente na origem da formação do desejo podólatra, numa etapa anterior.

VII Parafilias: Loonerismo

[ Loonerismo ]
O loonerismo se dá onde o portador é fascinado e se excita ao ver e tocar balões de latex (bexigas, bolas de festa).
Não muito popular no Brasil mas já extensamente documentado no exterior e na Internet, esse fetiche é adquirido na infância quando o portador começa a sentir uma fascinação por esses objetos e passa a desejar sexualmente eles ou se excita ao ver pessoas do sexo oposto brincando com balões.
Os fetichistas também usam esses balões para masturbação.
Recentemente esse fetiche ficou muito popular na Internet onde seus adeptos se auto-denominam Looners.
Daí o termo "loonerismo", dado por mim, já que não encontrei nenhuma outra denominação abreviada.
Há sites comerciais que se dedicam em vender galerias de fotos e videos com mulheres nuas interagindo com os balões (isto porque a grande maioria desses fetichistas são homens).
Também poderia ser enquadrado em uma subdivisão do Fetichismo, mas por se tratar de um caso muito específico e não muito conhecido, achei necessário individualizar.

VI Parafilias: Parcialismo

[ Parcialismo ]
O parcialismo, caracterizado por impulsos sexuais e fantasias sexualmente excitantes dirigidas exclusivamente a partes do corpo humano como pés, mãos, nádegas ou peito, excluindo todas as outras.
Pode ser considerada parte inclusa no Fetichismo, mas na minha opinião, creio que mereça seu devido espaço e diferencial.

V Parafilias: Necrofilia

[ Necrofilia ]
Os necrófilos são tidos, quase sempre, como psicóticos e sofrem desse distúrbio considerado grave.
Necrofilia é a excitação sexual decorrente da visão ou do contato com um cadáver.
O fenômeno da necrofilia é conhecido desde os mais remotos tempos da história humana, podendo ainda hoje ser observado como costume comum (às vezes até sacralizado) em certas tribos africanas e asiáticas, bem como em manifestações esporádicas na chamada civilização ocidental.
Pra quem gosta de textos mais engraçados, mas que não deixam de apresentar a verdade, recomendo:

terça-feira, outubro 10, 2006

IV Parafilias: Sadismo & Masoquismo

[ Sadismo & Masoquismo ]
Os sádicos ou sadomasoquistas, têm prazer quando provocam dor ou humilhação moral a outra pessoa, que pode ou não consentir. As atitudes podem ser pequenas, como tapas, mas podem até mesmo provocar a morte.
Já o masoquista gosta de sofrer, e assim, obtém excitação. A mistura dessas duas práticas consiste no sadomasoquismo. Ora a pessoa causa a dor, ora a pessoa sofre.
O sadomasoquismo de maneira leve é considerada uma prática comum. Algemas, roupas de couro e chicotes fazem parte da concretização da fantasia sexual do sadomasoquista.
Assim com arranhões, uso de gelo e pingos quentes de cera de vela, pequenos cortes ou queimaduras, puxões de cabelo, bondagè (técnica que consiste em amarrar firmemente o parceiro em um ou vários locais, podendo ser em zonas erógenas ou não, a fim de provocar prazer/dor).
OBS:
Para acabar de uma vez por todas com essa dúvida à cerca dos termos, memorize:
- Sadismo (sádicos) = obter prazer em provocar/infingir a dor;
- Masoquismo (masoquistas) = obter prazer em sentir a dor;
Portanto, temos:
Sadismo + Masoquismo = SADOMASOQUISMO
É válido lembrar que para que tal prática seja realizada com plena satisfação para ambas as partes, é necessário que haja um grande diálogo inicial, sem falar de confiança mútua entre os parceiros e total entrega.

III Parafilias: Travestismo

[ Travestismo ]

Quem se traveste não é, necessariamente, homossexual.
A maioria, ao contrário do que se pensa, é heterossexual e não quer mudar de sexo.
Muitas pessoas compartilham desse comportamento, que consiste em usar roupas do sexo oposto, com os parceiros ou não, e assim, alcançar o prazer.
Na maioria dos casos, não passa de uma brincadeira saudável em busca de criatividade e , consequentemente, prazer.
Vem a se concretizar como parafilia quando deixa se ser algo esporádico para vir a ser necessário para a excitação.

II Parafilias: Fetichismo

[ Fetichismo ]
É quando a preferência sexual da pessoa está voltada para objetos, tais como calcinhas, sutiãs, lingeries, luvas ou sapatos, sendo que a pessoa utiliza tais objetos para se masturbar ou exige que a parceira sempre use o objeto em questão durante o ato sexual, caso contrário não conseguirá se excitar e realizar o ato sexual.
Muitas coisas podem ser consideradas objetos de fetiche. Pés, mãos e qualquer outra parte do corpo, sem ser as diretamente relacionadas com sexo, como seios, vagina, pênis, bumbum, também podem ser objeto que despertem os praticantes - que, geralmente, são homens tímidos com dificuldades de comunicação.
A prática do fetiche pode ser durante a masturbação ou na relação a dois.
O fetichismo não é considerado disfunção sexual na medida em que os objetos que provocam interesse erótico e não causem dano a ninguém.
As fantasias sexuais que todos nós possuíms, se concretizadas, caracterizam casos primários de fetichismo, tendo em vista que foram realizadas apenas para diversificação e apimentação na relação, e não para que o prazer pudesse ser obtido unicamente dessa maneira.
OBS:
Existem ainda casos de FETICHISMO TRANSVÉSTICO, caracterizado pela utilização de roupas femininas por homens heterossexuais para se excitarem, se masturbarem ou realizarem o ato sexual, sendo que em situações não sexuais se vestem de forma normal.
Quando passam a se vestir como mulheres a maior parte do tempo, pode haver um transtorno de gênero, tipo transexualismo por baixo dessa atitude. É importante ressaltar que o fetichismo transvéstico também só é diagnosticado como uma parafilia quando é feito de forma repetitiva e exclusiva para obter prazer sexual.

sexta-feira, outubro 06, 2006

I Parafilias: Exibicionismo


[ Exibicionismo ]
É quando a pessoa mostra seus genitais a uma pessoa estranha, em geral em local público, e a reação desta pessoa, que foi pega de surpresa, lhe desperta excitação e prazer sexual, mas geralmente não existe qualquer tentativa de uma atividade sexual com o estranho.
As pessoas que abaixam as calças em sinal de protesto ou ataque a preceitos morais não são exibicionistas, pois não fazem isso com finalidade sexual.
Os exibicionistas, contrariando a regra, geralmente, são homens tímidos que têm medo de contato sexual. Os praticantes expõem seus órgãos genitais a pessoas do outro sexo nas ocasiões mais impróprias.
Assim, eles despertam seus desejos sexuais e alcançam o prazer, podendo se masturbar durante ou depois a exposição.
O objetivo dos homens - que são a maioria dos praticantes - é chocar mulheres desconhecidas, causando desgosto.
Mas é claro que também existem mulheres com tal distúrbio, em menor escala, mas existem.
No caso feminino, o exibicionismo se dá quando a mulher, no momento de ato sexual, de uma troca de roupa ou qualquer outra coisa que possa exibir parte do corpo que possa ser considerada lasciva e sensual, sente prazer em se fazer observar, se compraz em despertar desejos ou repulsas em quem quer que seja o observador.

Desventuras em Série

[ Desejo ]

Começando com uma foto que vem a retratar o Desejo, pois tudo, na sexualidade, parte deste princípio.

Como muita gente sabe, ou pelo menos deveria saber, tenho muito apreço por psicologia, psiquiatria e psicanálise.

A Psicanálise é, ao mesmo tempo, um modo particular de tratamento do desequilíbrio mental e uma teoria psicológica que se ocupa dos processos mentais inconscientes, uma teoria da estrutura e funcionamento da mente humana e um método de análise dos motivos do comportamento, uma doutrina filosófica e um método terapêutico de doenças de natureza psicológica supostamente sem motivação orgânica.

Sua formulação representou basicamente a consolidação em um corpo doutrinário de conhecimentos existentes, como a estrutura tripartite da mente (Id, Ego e Superego), suas funções e correspondentes tipos de personalidade, a teoria do inconsciente, o método terapêutico da catarse, e toda a filosofia pessimista da natureza humana difundida à época em que foi concebida. Além de alicerçar-se, como método terapêutico, nas descobertas do médico austríaco Josef Breuer, como doutrina tem em seus fundamentos muito do pensamento filosófico de Platão e do filósofo alemão Arthur Schopenhauer.

No entanto, ao serem esses conhecimentos incorporados na Psicanálise, foi aberto o caminho para um número grande de conceitos subordinados que eram novos, como os de atos sintomáticos, sublimação, perversão, tipos de personalidade, recalque, transferência, narcisismo, projeção, introjeção, etc. A psicanálise constituiu-se, por isso, em um modo novo de abordar as condições psíquicas correspondentes a estados de infelicidade e a comportamentos anti-sociais, e deu nascimento ao tratamento clínico psicológico e psiquiátrico moderno.
Daí então que vem a surgir o estudo das Parafilias, ou os conhecidos "Distúrbios e/ou Perverssões Sexuais".

Mas .. o que seria isso? Parafilia é o termo atualmente empregado para os transtornos da sexualidade, anteriormente referidos como "perversões", uma denominação ainda usada no meio jurídico. Estudar as Parafilias é conhecer as variantes do erotismo em suas diversas formas de estimulação e expressão comportamental.Culturalmente se reconhece o sexo convencional como sendo heterossexual, coital, com finalidade prazerosa e/ou procriativa, momentaneamente monogâmico.

Sim, "convencional" , evitando-se o termo "normal", devido ao fato das pessoas confundirem (erroneamente) o "não-normal" com o "patológico". É difícil definir o que seria um comportamento sexual normal, porque afinal de contas, o quê, exatamente, é normal? Tudo depende de que ângulo se vê. Pra mim, é normal sentir prazer com mordidas e arranhões, enquanto meu vizinho acredita que tal prazer só é alcançado se for realizado sem o consentimento do parceiro. Você pode achar normal fantasiar com homens travestidos, enquanto eu prefiro pessoas mortas e acho sua visão inaceitável!
A Parafilia, pela própria etimologia da palavra, diz respeito à "para" de paralelo, ao lado de, "filia" de amor à, apego à. Portanto, para estabelecer-se uma Parafilia, está implícito o reconhecimento daquilo que é convencional (estatisticamente normal) para, em seguida, detectar-se o que estaria "ao lado" desse convencional. É uma atividade sexual na qual a resposta (desejo, excitação e orgasmo) ocorre normalmente, contudo o indivíduo necessita, para obtenção da sua excitação, de um objeto ou práticas não usuais.

Nesse caso, a sexualidade é caracterizada por impulsos sexuais muito intensos e recorrentes, por fantasias e/ou comportamentos não convencionais, capazes de criar alterações desfavoráveis na vida familiar, ocupacional e social da pessoa por seu caráter compulsivo.

O "praticante", fisiologicamente falando, é um indivíduo normal. Apenas o 'elemento erógeno' de sua excitação que não é a usual. Existem diversas modalidades e variações. São consideradas práticas sexuais aceitas quando não provocam danos a outras pessoas ou aos costumes sociais.

Mas hoje em dia, quais são os costumes? No geral, a maioria dos traumas que levam aos chamados distúrbios sexuais, são originados por repressão ou liberação extrema de alguma fase sexual, e ainda pela criação familiar, que na maioria das vezes é a principal responsável pelas fantasias mais absurdas. Está configurada a Parafilia quando há necessidade de se substituir a atitude sexual convencional por qualquer outro tipo de expressão sexual, sendo este substitutivo a preferida ou única maneira da pessoa conseguir excitar-se. Assim sendo, na Parafilia os meios se transformam em fins, e de maneira repetitiva, configurando um padrão de conduta rígido o qual, na maioria das vezes, acaba por se transformar numa compulsão opressiva que impede outras alternativas sexuais.

Algumas Parafilias incluem possibilidades de prazer com objetos (fetichismo), com o sofrimento e/ou humilhação de si próprio ou do parceiro (maso e sadomasoquismo), com o assédio à pessoas 'pre-púberes' ou inadequadas à proposta sexual (pedofilia). Estas fantasias ou estímulos específicos, entre outros, seriam pré-requisitos indispensáveis para a excitação e o orgasmo.Em graus menores, às vezes, a imaginação fantasiosa do parafílico encontra solidariedade com o parceiro na iniciativa, por exemplo, de trasvestir-se de sexo oposto ou de algum outro personagem para conseguir o prazer necessário ao orgasmo.

Quanto ao grau, a Parafilia pode ser leve, quando se expressa ocasionalmente, moderada, quando a conduta é mais freqüentemente manifestada e severa, quando chega a níveis de compulsão.
Como já foi citado aqui, existem várias "modalidades" e variações da parafilia, muitas já conhecidas e muito praticadas como atos normais.

E hoje, daremos início à série "PARAFILIAS", vindo a retratar e a esclarecer as mais conhecidas, digamos assim.

OBS:
É extremamente válido lembrar que as fotos presentes em cada uma das retratações de parafilias, são apenas imagens semelhantes, não vindo a possuir qualquer vínculo com a realidade das palavras.
Ou seja, mesmo se tratando de fotos minhas na retratação dos distúrbios, isso não significa que eu os possua.
Alguns até sim, mais isso caberá somente à minha intimidade, portanto, nada de conjecturações à cerca de minha vida íntima, seja ela normal, convencional, ou não.

sexta-feira, setembro 22, 2006

Falácias

[Hey girl, what you gonna do ?]

Tudo segue bem !

Embora eu tenha me cansado relativamente do meu trabalho, como já expus aqui mesmo, anteriormente. Ah, eu tô irresponsável, louca, desrregrada, vagante.

E porque EU não poderia me dar a esse luxo ? Oxi.Chega se ser o contraponto, o alicerse, a segurança alheia. Tem uma hora que simplesmente não dá mais. Mas essa fase não é inerente a mim, portanto creio que não tardará a passar.

Hoje, aliás, ontem, milagrosamente, fui assistir aula, e fiz duas provas belíssimas ! Nossa, como eu amo literatura e português ! Como eu adoro minha professora de literatura ! Como eu odeio a minha professora de português !Como mencionei uma vez em algum post do meu flog, existe uma diferença nada sutil entre profissional e trabalhador. E é essa diferença, respectivamente, que se adequa às minhas professoras . É gratificante ter uma aula lotada de paixão, de propriedade. Ao meu ver, é necessário que um professor transmita segurança naquilo que diz. Se não for assim, qual a garantia que ele dará a seus alunos ? E é justamente assim, segura e notavelmente apaixonada pela literatura, que minha professora Elizabeth é. Mas já a outra ... Impossível confiar em um professor arrogante, prepotente, cheio de piadas sem graça e de uma tentativa de introsamento com os alunos que soa de forma ridícula. Não dá pra dar crédito a quem não deposita paixão no que faz. Não há como dar credibilidade a quem não trasnmite certeza, propriedade. E não dá pra gostar de alguém que se acha tremendamente superior só por se encontrar em um cargo de professor. Pra mim, criar esse clima de competição e grau de superioridade com a turma, se tornando assim unanimamente antipatizada, é a maior derrota que um professor pode ter. Pra mim, é pura falta de tato e profissionalismo, sem falar de grande indício de incompetência.

Todo mundo aqui sabe o quanto eu sou saliente e que jamais fico calada quando recebo uma provocação. Isso é fato comprovado, principalmente pelos frequentadores do mirc, mais especificamente do #Maranhao, pela rede Brasnet. E hoje, foi exatamente assim.

Eu, chegando atrasada, entro na sala, não antes de dar bom dia e pedir com licença. Afinal, minha educação é extremamente blassè. Coloco minhas coisas na minha já pré-definida cadeira, e me dirijo lentamente à mesa da professora, que com o maior de deboche que conseguiu reunir nesse curto momento, me entrega a prova e diz:

" - Ah, decidiu vir hoje ? "

" - ... (Olhar fixo, riso cínico e pensando: não, não vim aqui, isso é fruto da sua imaginação, anta estúpida.)"

" - Bom, aqui está a prova. TENTE responder, e SE conseguir, TENTE justificar cada questão."

" - Ok. (sangue fervendo, e a cara de cinismo muito mais acentuada.)"


Até aí, tudo bem. Voltei vagarosamente ao meu lugar, cumprimentando algumas pessoas durante o percurso. Sento e dou uma boa olhada na prova.

Assunto: Pronomes relativos. Minha avaliação: fichinha.

Eu simplesmente sou EXTREMAMENTE criteriosa quando se trata da devida colocação pronominal, sou podre no que se refere à perfeita concordância. Primeira questão bem básica, de associar colunas. A coluna esquerda, com frases nas quais faltavam um pronome, quanto na coluna direita, vários pronomes que poderiam ser usados. Moleza, extremamente óbvio, tanto que eu quis me certificar:

" - É preciso justificar até a primeira questão ?"

" - Se você achar que está óbvio demais, não precisa não."

" - Mas é CLARO que tá óbvio ! (Se não tivesse, eu teria perguntado, vaca ?)"

" - Tá .. Se tu tá dizendo que é tão óbvio assim ..."


Aí eu não me aguentei ! Mas que cretina miserável !

Porra, se ela mesma já sabe da tremenda obviedade da questão, porque não deixou logo que essa ficasse isenta de qualquer justificativa ? E pra quê raios ela quer se exibir pra turma falando algo como se soubesse que eu estaria errada ? Sendo que ela sabia, que pelo fato deu ter notado a obviedade MONSTRA da questão, eu estava certa ? Sinceramente ? Pra mim, isso tem um nome: MARCAÇÃO. E vem desde o início do ano ... Mas é outra história que explicarei posteriormente quando achar o papel que contém a prova.

Mas tudo bem, marquei minha questão lá bonitinha, e ainda justifiquei lá pra madame: "Justificar o óbvio, sob minha ótica, nada mais é do que 'encheção de linguiça', perda de tempo e desperdício de potencial".

Espero que ela tenha ficado realmente satisfeita com a tão exigida justificativa.

Vaca.


terça-feira, setembro 19, 2006

Lutando pra me recompor.

Hoje a internet parou por causa de um vídeo que mostrava uma suposta foda da Daniela Ciccareli na praia, com o novo namorado.Foi notícias em milhares de sites, blogs, flogs, salas de bate-papo.Mas que falta do que fazer, hein ?Só porque a moça é famosa, apresentadora e essas coisas, ela não pode fazer sexo ?Ah, mas que hipocrisia do caramba, vou te contar.As pessoas perdem sua privacidade de uma forma praticamente total.E o pior é que tem uma renca falando que depois dessa a carreira da moça está arruinada ¬¬Ninguém aí faz sexo, né ? Aham, sei.Vão cuidar de suas vidas e se tocar de que vivemos livres, que não é porque a pessoa é pública que temos o direito de martirizá-la.E pra nada isso aqui, mas achei bom deixar clara a minha indignação.
Incrível como eu não tenho feito praticamente nada de produtivo mesmo.E ainda acho ruim quando minha mãe fala que a minha vida é só beber, fumar e sair.Mas se é verdade ... não tenho nem o que abrir a boca pra questionar.Me encontro em uma fase fora de mim, estranha e irresponsável.E odeio ficar pensando na hipótese de que eu sempre tenha sido assim, mas que só agora pude me dar conta disso.Mas sei que nem é verdade, porque de certa forma, eu sou bem metódica e perfeccionista no que se trata das minhas coisas, dos meus interesses.Mas o problema reside bem aí mesmo. E com o que não me interessa ?Tenho que entender que responsabilidade não se encaixa apenas naquilo que me agrada.Ultimamente, nada me motiva, me atrai ou me disperta interesse.Ando sem vontade de fazer qualquer coisa que não seja tomar coca-cola, fumar, sair pra onde quer que seja com os meus amigos, e só.As aulas não me interessam, embora eu tenha feito um esforço relativo pra me manter atenta.Nem dançar tem me interessado mais.Também, quando se está em um ambiente de trabalho desorganizado, onde todos vivem em uma eterna competição baseada na desonestidade, fica complicado.Em um ano de aula/trabalho, aprendi a lidar com os mais variados tipos de caráter, cara-de-pau, falsidade, incompetência e irresponsabilidade.Cresci muito, sem dúvidas, pois tive que assumir funções das quais dependem outras várias pessoas, de modo que tinha de executar meu trabalho com perfeição independente de problemas pessoais ou de saúde.Mas chega uma hora que tudo isso cansa. Que engolir sapos, falta de reconhecimento, irresponsabilidade e neuras, se torna maçante, e faz o prazer todo da coisa descer pelo ralo.E é justamente isso que tá acontecendo.O prazer virou desgosto.O profissional virou trabalhador, empregado.E tenho medo de que isso seja irreversível.
Acho que preciso de um tempo pra mim, pra colocar minhas idéias no rumo.Pra ver o que realmente eu quero pra mim, sem ter que descobrir isso com decepções ou frustrações.Sempre acredito que sei exatamente o que quero no momento, e busco isso incesantemente.Até quando eu consigo, e vejo que não era bem aquilo.Um exemplo muito bom e recente foi esse meu 2º namoro relâmpago com Felipe.Me senti a mais burras das criaturas, sinceramente. Porque errar é humano, mas permanecer no erro é pura burrice.Se não deu certo na primeira vez, porque raios que ia dar certo agora ?Eu gostava muito mesmo de Felipe quando namoramos a primeira vez. Mas a falta de compromisso e a irresponsabilidade dele no que se trata de palavra, conseguiram destruir isso.É válido lembrar que no que se trata de mim, estamos lidando com uma pessoa perfeccionista, metódica e sistemática.Fui muito burra em acreditar que dessa vez, poderia dar certo.Como, se naquela época, na qual ainda havia paixão, já não deu ? Não ia ser agora, sem paixão e sentimento o suficiente, que iria dar.Sem falar que de lá pra cá, eu apenas subi nos níveis de perfeccionismo e graus de exigência.Acho que a necessidade de mostrar a minha capacidade de namorar alguém acabou cegando a minha razão.Eu sempre soube que isso não daria certo, e me odeio de pensar que mesmo sabendo, não pude evitar.Definitivamente, eu não sou mulher pra namorar os caras daqui. Não mesmo.Não gosto de me relacionar com alguém que não julgo, mentalmente falando, tão aberto quanto eu.Sem neuras, possessividades, frescurinhas.Não tem homem pra mim nessa cidade, repito com uma certeza da qual nunca tive antes.Se tiver, está muito, mas muito bem escondido.
Não tenho do que falar dele, afinal, sempre foi uma ótima pessoa comigo.Tirando, é claro, a falta de responsabilidade com suas palavras, promessas e compromissos marcados.Mas dessa vez, ele me decepcionou como pessoa, e isso é quase irreversível.Creio eu que a minha visão à cerca dele, jamais será a mesma. É uma pessoa que desceu nos meus conceitos, e na minha consideração.De namorado, desceu pra alguém que eu apenas conheço. E que se não fosse inerente a mim, apagaria todas as lembranças, inclusive as boas.Mas, infeliz ou felizmente, isso não faz parte do meu caráter, princípios e ética.
Eu acho muito bom namorar, nossa, maravilhoso.É excelente ter uma companhia agradável ao lado, que te acompanhe, entenda e saiba partilhar momentos.Mas o que eu sinto falta mesmo em um namoro, é o sentimento, a paixão, a entrega, a cumplicidade, O AMOR.Não consigo mais sentir isso, que porra é essa ? Não tem ninguém capaz de acordar esse dragão adormecido há anos ?Preciso de alguém que me faça sentir viva, reaquecida, intensa. Que desperte algo que eu julgo morto. E que já não creio que exista.Já amei alguém tanto quanto ou mais do que a mim mesma, e sei como é essa sensação, um misto de prazer e dor que revive.É muito bom e muito ruim depender emocionalmente de alguém, entregar suas alegrias e tristezas na mão de uma única pessoa.Depender, amar, se entregar, se privar, sofrer, chorar. Sinto falta de algumas dessas coisas, porque eram elas que davam um centro pras coisas.Mas hoje em dia, não. A minha vida não se baseia mais em alguém além de mim mesma.Sofri tanto que não me entrego mais, não por barreiras ou coisas do tipo, mas por falta de vontade, ou até mesmo de alguém que mereça isso de fato.Sinto falta de amar alguém de novo.Mas não acho ruim ser assim, fria, como eu tenho sido. É até bem agradável, bem útil pra mim, tendo em vista que isso me poupa de uma série de frustrações, problemas, choros, brigas, desgastes e preocupações.E é claro, de decpções desnecessárias.Mas se eu pensar assim, nunca que vou ter alguém do lad de novo.É uma coisa quase impossível, eu sei. Mas eu nem ligo, não estou caçando e muito menos em desespero.Portanto, é só deixar acontecer, e sentir saudade de algumas coisas enquanto isso.

quinta-feira, setembro 14, 2006

Degradação e Vida!

["Le Jardin Des Supplices", Octave Mirbeau]

"Aos Padres, aos Soldados, aos Juízes, aos Homens, que educam, dirigem, governam os homens, dedico estas páginas de Matança e de Sangue."


"...- Na verdade, creio bem que o assassínio é a maior preocupação humana e que todos os nossos atos derivam dele...

Esperava-se uma longa teoria, mas ele calou-se.

- Evidentemente!.. - pronunciou um sábio darwinista...- E, meu caro, você acaba de emitir uma dessas verdades eternas, como todos os dias as descobria o lendário Monsieur de La Palisse... pois o assassínio é a própria base das nossas instituições sociais, por consequência a necessidade mais imperiosa da vida civilizada... Se deixasse de haver o assassínio, não haveria mais governo de espécie alguma, pelo simples fato de que o crime em geral e o assassínio em particular são, não apenas a sua desculpa, mas a sua única razão de ser ... Viveríamos então em plena anarquia, o que não pode conceber-se... Por isso, em vez de se procurar destruir o assassínio, é indispensável cultivá-lo com inteligência e perseverança... E eu não conheço melhor meio de cultura do que as leis.

E como se alguém prostestasse:

- Vejamos... Estamos à sós e podemos falar sem hipocrisia ?

- Por favor!... - assentiu o dono da casa. (...)

- Aliás - prosseguiu - o assassínio cultiva-se em si mesmo... Rigorosamente falando, não é o resultado desta ou daquela paixão, nem a forma patológica da degenerescência. É um instinto vital que nos habita.. que está em todos os seres organizados e os domina, como o instinto genésico¹... E isto é tão verdade que, a maior parte das vezes, estes dois instintos se combinam tão bem um com o outro, se confundem tão totalmente um no outro que, de certo modo, não são mais que um só e mesmo instinto e se deixa de saber qual dos dois nos impele a dar a vida e qual a retomá-la, qual o assassínio e qual o amor. Escutei as confidências de um digno assassino que matava mulheres não para lhes roubar, mas para as violar. O seu desporto era fazer que o espasmo de prazer de um coincidisse exatamente com o espasmo de morte do outro. Nesses momentos - dizia-me ele - imaginava-se um Deus capaz de criar o mundo !

- Ah! - exclamou o dono da casa e célebre escritor... - Se vai buscar os seus exemplos aos profissionais do assassínio!

Suavemente, o sábio explicou:

- É que, mais ou menos, todos nós somos assassinos... Todos nós experimentamos cerebralmente, em graus menores, quero crer, sensações análogas... Refreia-se a necessidade inata do assassínio, atenua-se a sua violência física, dando-lhe exutórios legais: a indústria, o comércio colonial, a guerra, a caça, o anti-semitismo... porque é perigoso entregar-se a ele sem moderação, fora das leis, e porque as satisfações morais que dele se tiram não valem a pena, vistas as coisas, para que alguém se exponha às comuns consequências do ato, a prisão... os colóquios com os juízes, sempre fatigantes e sem interesse científico e, finalmente, a gilhotina...

- Você exagera... - interrompeu o primeiro interlocutor. - Só para os assassinos sem elegância, sem espírito, os brutos impulsivos e destituídos de toda a espécie de psicologia, o assassínio é um exercício perigoso. Um homem inteligente e que raciocine pode, com uma impertubável serenidade, cometer todos os assassínios que quiser. Tem a impunidade garantida... A superioridade de suas combinações prevalecerá sempre contra a rotina das investigações policiais, e digamo-lo, contra a pobreza das investigações criminalistas em que se comprazem os magistrados instrutores... Nesta matéria, como em todas as outras, são os pequenos que pagam pelos grandes... Vejamos, meu caro, admite que o número de crimes ignorados...

- E tolerados...

- E tolerados... era o que eu ia dizer... Admite que esse número é mil vezes maior que o dos crimes descobertos e punidos, sobre os quais os jornais tagarelam com uma prolixidade tão estranha e uma falta de filosofia tão repugnante?... Se admite isso, concede também que o gendarme não é um espantalho para os intelectuais do assassínio...

- Sem dúvida. Mas não se trata disso... (...) Eu dizia que o assassínio é uma função normal - e de modo algum excepcional - da natureza e de todo ser vivo. Ora é exorbitante que, a pretexto de governar os homens, as sociedades se tenham arrogado o direito exclusivo de os matar, em detrimento das individualidades em quem esse direito reside.

- Justíssimo! O nosso amigo tem toda razão... Por mim, não creio que exista uma criatura humana que não seja, pelo menos virtualmente, um assassino... Algumas vezes divirto-me nos salões, nas igrejas, nas estações, nos terraços dos cafés, no teatro, em toda parte onde passam e circulam multidões, divirto-me a observar, do estrito ponto de vista homicida, as fisonomias... No olhar, na nuca, na forma do crânio, dos maxilares, do zigoma das faces, todos, em qualquer parte de si, trazem à vista os estigmas dessa fatalidade fisiológica que é o assassínio... Não se trata de uma aberração do meu espírito, mas não posso dar um passo sem esbarrar com o assassínio, sem o ver flamejar sob as pálpebras, sem sentir o seu misterioso contato nas mãos que se estendem pra mim...No domingo passado fui a uma aldeia onde se realizava a festa do orago²... Na praça principal,(...) estavam reunidos todos os modos de distração. (...) Os cavalos de pau, as montanhas russas, os baloiços, atraíam pouca gente. Em vão os órgãos tocavam fanhosamente as suas árias mais alegres e os seus mais sedutores ritornelos. Outros prazeres requeriam a multidão em festa. Uns atiravam à carabina, à pistola, ou com uma velha balestra, contra alvos que figuravam rostos humanos; outros, com bolas, derrubavam fantoches, alinhados lastimosamente sobre barras de madeira e havia quem batesse com um malho numa mola que fazia mover, patrioticamente, um marinheiro francês, o qual ia trespassar com a baioneta, na ponta de uma tábua, um pobre Hova ou um irrisório Dahomeiano... Por toda parte, sob suas tendas e nas pequeninas lojas iluminadas, simulacros da morte, paródias de chacinas, representações de hecatombes... E toda aquela boa gente se sentia feliz! (...) Notei mesmo que estes divertimentos pacíficos ganharam, desde há anos, uma extensão considerável. A alegria de matar tornou-se maior e vulgarizou-se mais à medida que os costumes abrandam - porque os costumes abrandam, não duvidem... - Antigamente, quando éramos ainda selvagens, os tiros dominicais eram de uma pobreza monótona que dava desgosto ver. Atirava-se apenas contra cachimbos e cascas de ovos que dançavem em cima de repuxos. Nos estabelecimentos mais afortunados haviam pássaros, mas eram de gesso... Onde estava o prazer, pergunto eu?... Hoje, com a vinda do progresso, é fácil a qualquer homem de bem proporcionar a si mesmo, por dois soldos, a emoção delicada e civilizadora do assassínio... E ainda por cima se ganham pratos pintados e coelhos... Os cachimbos, as cascas de ovos, os pássaros de gesso que se partiam estupidamente, sem nada nos sugerirem de sangrento, foram substituídos pela imaginação feirante por figuras de homens, de mulheres, de crianças, cuidadosamente articuladas e vestidas, como convém... Depois faz-se gesticular e andar essas figuras... Por meio de um mecanismo engenhoso passeiam felizes ou fogem espavoridas. Aparecem sozinhas ou em grupos em paisagens de cenário, escalando muros, entrando em torreões, descendo de escantilhão por janelas, surgindo de alçapões... Funcionam como seres reais, têm movimentos de braço, de perna, de cabeça. Há umas que parecem chorar... outras que são como pobres... outras que são como doentes... outras vestidas de ouro como princesas de lenda. Na verdade, pode-se imaginar que têm uma inteligência, uma votnade, uma alma... que estão vivas!... Algumas tomam mesmo atitudes patéticas, suplicantes... Julgamos ouvi-las dizer: "Misericórdia!... não me mates!..." Por isto, é requintada a sensação ao pensar que se vai matar coisas que mexem, que avançam, que sofrem, que imploram!... Ao dirigir contra elas a carabina ou a pistola vem-nos à boca como que um gosto de sangue quente... Que alegria quando a bala decapita aquelas imitações de homens!... que sapateada quando a flecha rebenta os peitos de cartão e lança por terra os corpinhos inanimados em posições de cadáveres!... Todos se excitam, se encarniçam, se incitam... Apenas se ouvem palavras de destruição e de morte: "Rebenta-o!... aponta-lhe ao olho..., aponta-lhe ao coração... Está liquidado!" Assim como ficam indiferentes diante dos alvos e dos cachimbos, assim estas honradas pessoas se exaltam se o objetivo é representado por uma fugura humana. Os inábeis encolerizam-se, não contra a sua falta de destreza, mas contra o fantoche que falharam... Chamam-lhe covarde, cobrem-no de injúrias ignóbeis quando ele desaparece, intacto, atrás da porta do torreão... Desafiam-no: "Vem cá, miserável!" E recomeçam a atirar-lhe para cima, até o matarem... Examinem essa boa gente... Nesse momento são realmente assassinos, seres movidos apenas pelo desejo de matar. O bruto homicida que ainda há pouco dormitava dentro deles acordou perante a ilusão de que iam destruir qualquer coisa que vivia. O boneco de cartão, de farelo ou de pau que passa e torna a passar no cenário, não é pra eles um brinquedo, um pedaço de matéria inerte... Ao vê-lo passar e repassar atribuem-lhe inconscientemente um calor de circulação, uma sensibilidade de nervos, um pensamento, coisas que é tão asperamente doce aniquilar, tão ferozmente delicioso ver escorrer por feridas que foram feitas... Chegam mesmo a gratificar o boneco com opiniões políticas ou religiosas contrárias às suas próprias, acusando-o de ser judeu, inglês ou alemão, a fim de acrescentar um ódio particular ao ódio geral da vida, e reforçar assim, com uma vingança pessoal intimamente saboreada, o instintivo prazer de matar.

Aqui interveio o dono da casa que, por delicadeza para com os hóspedes e com o objetivo caridoso de permitir ao nosso filósofo e a nós próprios respirar um pouco, objetou molemente:

- Você fala apenas de brutos, de camponeses, os quais, concordo, estão em permanente estado de assassínio... Mas não é possível que aplique as mesmas observações aos "espíritos cultos", às "naturezas policiadas", às "individualidades mundanas", por exemplo, para quem cada hora da sua existência se conta em vitórias sobre o instinto original e sobre as persistências selvagens do atavismo.

A isto o nosso filósofo respondeu vivamente:

- Dê-me licença... Quais são os hábitos, os prazeres preferidos daqueles a quem chama, meu caro, "espíritos cultos e naturezas policiadas"? A esgrima, o duelo, os desportos violentos, abominável tiro aos pombos, as corridas de touros, os variados exercícios do patriotismo, a caça... coisas que são, na realidade, regressões à época das antigas barbáries quando o homem - se assim se pode dizer - era, em cultura moral, semelhante às grandes feras que perseguia. Aliás, não devemos lamentar que a caça tenha sobrevivido a todo o aparato mal transformado destes costumes ancestrais. É um derivativo poderoso por onde os "espíritos cultos e naturezas policiadas" escoam, sem grandes danos para nós, o que neles ainda subsiste de energias destruidoras e de paixões sangrentas. Sem isso, em vez de perseguir o veado, de matar o javali, de chacinar inocentes aves nas luzernas, fique certo de que seria atrás de nós que os "espíritos cultos" lançariam as suas matilhas, que seria a nós que as "naturezas policiadas" abateriam alegremente a tiro de espingarda, o que não deixam de fazer quando têm o poder, de uma maneira ou de outra, com mais decisão e - reconheçamo-lo francamente - com menos hipocrisia que os brutos... Ah! não desejemos nunca o desaparecimento da caça das nossas planícies e florestas!... É a nossa salvaguarda e, de algum modo, o nosso resgate... No dia em que ele desaparessece de repente, depressa a substituiríamos para o delicado prazer dos "espíritos cultos". O caso Dreyfus³ é para nós um exemplo admirável e nunca, creio eu, a paixão da matança e a alegria da caça ao homem se exibiram tão completa e cinicamente... Entre os incidentes extraordinários e os fatos monstruosos a que, quotidianamente, durante um ano, ele deu lugar, o da perseguição, nas ruas de Nantes, do Sr.Grimaux, é o mais característico e todo em louvor dos "espíritos cultos e das naturezas policiadas", que fizeram cobrir de ultrajes e de ameaças de morte esse grande sábio a quem devemos os mais belos trabalhos de química... Devemos sempre lembrar-nos de que o maire de Clisson*, "espírito culto", numa carta que foi publicada recusou a entrada na sua cidade a Grimaux e lamentou que as leis modernas não lhe permitissem "enforcá-lo alto e curto" como acontecia aos sábios nas belas épocas das antigas monarquias... Nisto foi o excelente maire aprovado por tudo quanto a França conta dessas "individualidades mundanas" tão requintadas, as quais, no dizer do nosso hospedeiro, alcançam em cada dia brilhantes vitórias sobre o instindo original e as persistências selvagens do atavismo. Note-se, por outro lado, que é entre os "espíritos cultos e naturezas policiadas" que se recrutam quase exclusivamente os oficiais, isto é, homens nem mais nem menos maus, nem mais nem menos estúpidos que os outros, escolhem livrementre uma profissão - muito honrosa, de resto - em que todo o esforço intelectual consiste em operar sobre a pessoa humana as violações mais diversas, em desenvolver e multiplicar os mais completos, os mais amplos, os mais seguros meios de pilhagem, de destruição e de morte... Não existem navios de guerra a que deram nomes perfeitamente leais e verídicos de Devastação... Furor... Terror?... E eu próprio? Ah! pois!... Tenho a certeza de que não sou um monstro... creio ser um homem normal, com ternuras, sentimentos elevados, uma cultura superior, requintes de civilização e de sociabilidade... Pois bem, quantas vezes ouvi rosnar em mim a voz imperiosa do assassínio!.. Quantas vezes senti subir do fundo do meu ser até ao cérebro, num fluxo de sangue, o desejo, o áspero, violento e quase invencível desejo de matar!... Não julguem que este desejo se tenha manifestado durante uma crise passional, tenha acompanhado uma cólera súbita e irrefletida, ou se tenha combinado com um vivo interesse de dinheiro... De modo algum... Este desejo nasce de súbito, poderoso, injustificado em mim, por nada e a propósito de nada... na rua, por exemplo, diante das costas de um transeunte desconhecido... Sim, há costas na rua que pedem a navalha... Porquê?...

Feita essa confidência imprevista, o filósofo calou-se um instante, olhou-nos a todos com um ar receoso... E prosseguiu:

- Reparem, por mais que os moralistas critiquem... a necessidade de matar nasce no homem como a necessidade de comer e confunde-se com ela... Esta necessidade instintiva, que é motor de todos os organismos vivos, desenvolve-a a educação em vez de a refrear, santificam-na as religiões em vez de a amaldiçoarem; tudo se alia para fazer dela a charneira sobre a qual gira a nossa admirável sociedade. Desde que o homem acorda para a consciência, insuflam-lhe o espírito do assassínio no cérebro. O assassínio, engrandecido até ao dever, popularizado até ao heroísmo, acompanha-lo-á em todas as fases da sua existência. Fa-lo-ão adorar deuses barrocos, deuses loucos furiosos que só se comprazem com cataclismos e, maníacos de ferocidade, se empanzinam de vidas humanas, ceifam os povos como searas de trigo. Só lhe darão a respeitar os heróis , esses repugnantes brutamontes, carregados de crimes e manchados de sangue humano. As virtudes pelas quais se erguerá acima dos outros e que lhe valem a glória, a fortuna, o amor, apoiar-se-ão unicamente no assassínio... Encontrará na guerra a suprema síntese da eterna e universal loucura do morticínio, do morticínio regularizado, arregimentado, obrigatório e que é uma função nacional. Para onde quer que vá, faça o que fizer, verá sempre esta palavra: assassínio, imortalmente escrita no frontão desse vasto matadouro que é a Humanidade. Sendo assim, como querem que esse homem, a quem inculcam desde a infância o desprezo pela vida humana, a quem votam o assassínio legal, recue perante o crime quando nele encontra um interesse ou uma distração? Em nome de que direito vai a sociedade condenar assassinos que mais não fizeram, na realidade, que conformar-se com as leis homicidas que ela edita, e seguir os exemplos sangrentos que ela lhes dá? Quê, poderiam dizer os assassinos se um dia obrigam-nos a chacinar uma quantidade de gente contra a qual não sentimos ódio, que nem sequer conhecemos; e quanto mais matamos, mais nos cumulam de recompensas e de honrarias?... Noutro, confiantes na vossa lógica, suprimimos seres porque eles nos incomodam e os detestamos, porque desejamos o seu dinheiro, a mulher, o lugar, ou simplesmente porque é para nós uma alegria suprimí-los... tudo razões precisas, plausíveis e humanas... E logo vem gendarme, juiz, o carrasco!... Aí está uma revoltante injustiça que não tem qualquer sentido! Que poderia a sociedade responder a isto, se se preocupasse pouco que fosse com a lógica?...

Um homem novo, que não pronunciara ainda uma palavra, disse:

- Será essa realmente a explicação da singular mania de assassínio de que, no seu entender, todos somos, original ou eletivamente, atingidos?... Não sei nem o quero saber. Prefiro acreditar que todo o mistério está em nós. Isto satisfaz melhor a preguiça do meu espírito a quem horroriza resolver os problemas sociais e humanos, que aliás nunca se resolvem, e isto fortalece-me nas idéias, nas razões puramente poéticas pelas quais sou tentado a explicar, ou antes, a não explicar tudo quanto não compreendo... Fez-nos há pouco, meu caro mestre, uma confidência terrível e descreveu-nos impressões que se tivessem tomado uma forma ativa poderiam levá-lo longe, e a mim também; porque muitas vezes eu também senti essas impressões e, ultimamente, nas circunstâncias banais que passo a contar... Mas, antes, permitam-me que acrescente que devo talvez estes estados de espírito anormais ao meio em que sempre fui educado e às influências cotidianas que em mim penetram sem que eu o saiba... Conhecem meu pai, o Sr. Trepán. Sabem que não há homem mais sociável, mais encantador do que ele. Também não há ninguém cuja profissão tenha feito de si assassino mais deliberado... Muitas vezes assisti a essas operações maravilhosas que o tornaram célebre no mundo inteiro... O seu desprezo pela vida tem qualquer coisa de verdadeiramente prodigioso. Uma vez, acabara de praticar diante de mim uma laparotomia** dificílima quando, de súbito, ao examinar a doente ainda no sono do clorofórmio, murmurou: "Esta mulher deve ter uma infecção no piloro***... Se eu lhe abrisse também o estômago?... Tenho tempo." E assim fez. Ela não tinha nada. Então, meu pai começou a coser a inútil ferida, dizendo: "Ao menos assim fica-se logo com a certeza." Foi a certeza tanta que a doente morreu nessa mesma noite... Outro dia, na Itália, aonde fora chamado para uma operação, visitávamos um museu... Eu extasiava-me... "Ah! poeta! poeta!", exclamou meu pai, que nem um instante se interessara pelas obras-primas que me transportavam de entusiasmo... "A arte!... a arte!... o belo!... sabes o que é?... Pois, meu rapaz, o belo é um ventre de mulher, aberto, em sangue, com pinças lá dentro!..." Mas eu já não estou a filosofar, apenas conto... Extrairão da narrativa que prometi todas as consequências antropológicas que ela comporta, se é que realmente as comporta..."

_________________________________________________________

Criei uma espécie de vocabulário, só para esclarecer as questões que me deixaram na dúvida, quando li esse trecho pela primeira vez. Eis:

¹ = instinto sexual de procriação da espécie;

² = santo padroeiro de uma capela ou igreja, a quem esse templo é dedicado. A palavra descende de oráculo, que significa a resposta de um deus.

³ = O caso Dreyfus foi um escândalo político que dividiu a França por muitos anos, durante os finais do século XIX.Centrava-se na condenação por traição de Alfred Dreyfus em 1894, um oficial de artilharia Judeu no exército francês. Dreyfus era, em verdade, inocente: a condenação baseava-se em documentos falsos, e quando oficiais de alta-patente franceses se aperceberam disto tentaram ocultar o erro. O escritor Émile Zola expôs o escândalo ao público geral no jornal literário L'Aurore numa famosa carta aberta ao Presidente da República Félix Faure, intitulada J'accuse! (Eu acuso!) em 13 de Janeiro de 1898. Nas palavras da historiadora Barbara W. Tuchman, foi "uma das grandes comoções da história". Enquanto que Bernard Lazare e Scheurer tinham até então defendido Dreyfus, Zola partiu para o ataque, denunciando os culpados pela farsa.O caso Dreyfus dividiu a França entre os dreyfusards (os apoiantes de Alfred Dreyfus) e os antidreyfusards (contra ele). A disputa foi particularmente violenta, uma vez que envolvia vários assuntos no clima controverso e agitado de então. De certa forma, estas divisões seguiam a linha de demarcação entre uma direita apoiando frequentemente o retorno à monarquia e clericalismo - ou seja, o envolvimento da Igreja Católica Romana na política pública - e uma ala esquerda apoiando a República, muitas vezes com sentimentos anti-clericais. A virulência das paixões levantadas pelo caso deveu-se ao anti-Semitismo em França. Em 1886 havia sido publicado o livro anti-semita de Edouard Drumont, "La France Juive". Intelectuais - professores, estudantes, artistas, escritores - assinaram pedidos intercedendo por Dreyfus.Em suas demonstrações gritavam "Vive Dreyfus! Vive Zola!". Do outro lado da barricada, os gritos eram de "Vive l'Armée! Conspuez Zola! Mort aux Juifs!" Dreyfus era apresentado como o bandido que vende os seus irmãos como Judas (supostamente) vendera o seu "Deus". Houve pilhagens de lojas de judeus, numa premonição da Kristallnacht da vizinha Alemanha. Houve verdadeiros pogromas na Argélia em Boufarik, Mostaganem, Blida, Médéa, Bab el-Oued. Houve violações, mortos e feridos.

* = Olivier de Clisson, o Carniceiro (23 de Abril 1336 – 22 de Abril 1407) foi um nobre bretão que atingiu o cargo de Condestável de França durante a Guerra dos Cem Anos. Clisson era de início um aliado dos ingleses comandados por Eduardo III de Inglaterra, mudando mais tarde a sua lealdade para França.Clisson nasceu como herdeiro de uma família de senhores locais vassalos do Ducado da Bretanha, uma zona chave no desenrolar da Guerra dos Cem Anos. O seu pai, Olivier de Clisson como ele, foi executado sem julgamento em 1343, por ordens de Filipe VI de França por alegadamente espiar a favor de Inglaterra. Após esta morte, a sua mulher Joana de Belleville levou a sua cabeça de volta para a Bretanha, para a exibir perante o filho e lhe arrancar um voto perpétuo de ódio aos franceses. Clisson foi então para Londres, onde foi educado na corte inglesa segundo os princípios de vingança contra França defendidos pela mãe. Um dos seus companheiros do exílio da juventude foi João de Montfort futuro Duque da Bretanha, mas apesar da proximidade de idade e de condição desfavorável, os dois detestaram-se mutuamente desde então. Clisson era, no entanto, seu vassalo e foi ao serviço de Montfort que iniciou a sua carreira militar, destacando-se por exemplo na batalha de Auray. A sua arma preferida era um machado de duas lâminas que empregava com uma ferocidade sobre os inimigos que lhe valeu a alcunha de o Carniceiro. Foi ainda durante esta fase da sua vida que perdeu um olho em combate, o que levou à sua segunda alcunha: o Zarolho.

** = Laparotomia é uma manobra cirúrgica que envolve uma incisão através da parede abdominal para aceder à cavidade abdominal. É também conhecida como celiotomia.

*** = Piloro é uma constricção na porção terminal do estômago que regula a passagem do quimo semi-digerido deste para o duodeno.

_________________________________________________________


"O Jardim dos Suplícios", Octave Mirbeau.

Enfim, o livro tem inúmeras partes interessantíssimas. Muitas introspecções que valem muito à pena serem lidas. Mas se eu digitar o livro todo, perde a graça. Se bem que esse livro não é encontrado aqui no Brasil facilmente. Sorte a minha ter ganho de presente, de uma pessoa realmente maravilhosa na minha vida.

O livro é um clássico da literatura francesa, tendo como título original: "Le Jardin Des Supplices". O máximo que a pessoa que me deu conseguiu encontrar, foi uma tradução portuguesa, feita por Marília Caeiro, vinda de Lisboa, Portugal.

O livro divide-se em duas partes, com conteúdos substantivos e literários extremamente distintos. Na primeira parte, Octave Mirbeau descreve a política francesa do século XIX, já no tempo da República, abundante em corrupção, favoritismo e incompetência. A segunda parte decorre algures na China, num contexto de selvajaria e barbárie. O personagem principal, anônimo, relata o lema da educação que lhe deu seu pai: “Tirar qualquer coisa a alguém e guardá-la para si, é roubo… Tirar qualquer coisa a alguém e passá-la a outrem, em troca de tanto dinheiro quanto se puder, é comércio… O roubo é estúpido porque se contenta com um só lucro, muitas vezes perigoso, ao passo que o comércio comporta dois, garantidos…”

O seu protetor político, Eugène Mortain, tem uma atitude semelhante no seu ramo de negócio - a política. Um diálogo entre ambos é qualquer coisa de caricato e esclarecedor: " Há na circunscrição que te escolhi uma questão que domina todas as outras: a beterraba… O resto não conta e é com o prefeito… Tu és um candidato puramente agrícola… mais ainda, exclusivamente beterrabista… Não o esqueças… Seja o que for que possa acontecer durante a luta, mantém-te inabalável nesta plataforma excelente…Sabes alguma coisa de beterraba?

- Palavra que não – respondi – sei apenas, como toda a gente, que dela se tira açúcar… o álcool.

- Bravo! Isso basta – aplaudiu o ministro com uma tranquilizadora e cordial autoridade… Explora até ao fundo esse conhecimento… Promete rendimentos fabulosos… adubos químicos extraordinários e gratuitos… caminhos-de-ferro, canais, estradas para a circulação desse interessante e patriótico legume… Anuncia desagravamentos de impostos, prémios aos cultivadores, direitos ferozes sobre as matérias concorrentes… tudo o que quiseres!... Nesta ordem de idéias tens carta branca e eu te ajudarei… Mas não te deixes arrastar para polêmicas pessoais ou gerais que poderiam tornar-se perigosas para ti e, com a tua eleição, comprometer o prestígio da República… É que, aqui entre nós, meu velho – não te censuro nada, apenas verifico –, tens um passado incômodo."

Depois de perder a eleição, o personagem central é enviado em missão “científica” para o Ceilão, mas apaixona-se durante a viagem por Clara, uma aristocrata inglesa que o convence a ir viver com ela para a China. Daí que a segunda parte do livro decorra num ambiente mais exótico e fascinante. Porém, cedo se percebe que aquilo que inicialmente aparenta ser um paraíso terrestre, é, na verdade, o inferno. O elemento central desta segunda parte é o Jardim dos Suplícios, parte integrante de uma prisão próxima do local em que ambos vivem. A descrição das torturas, dos instrumentos empregues e das expressões sádicas dos torturadores e carrascos é maravilhosa e excitante. Curiosamente, todo este ambiente contrasta com a beleza das flores e árvores que crescem no jardim banhado de sangue humano, e que Mirbeau descreve com uma precisão quase obsessiva. O jardim dos suplícios é um local belo e horrendo, as torturas mais infames são obras de arte, esculpidas com devoção por carcereiros dedicados e dementes. Se a escrita é extremamente cuidada e de fino recorte, o que ela retrata é grotesco, repugnante e abominável, aos olhos sociais. Mas é soberbo e lascivo, perante meus ávidos olhinhos sadomasoquistas.

É um livro que recomendo, com certeza.



Mas não à todos.